ÂNGULO - cinema pessoal
cena de Além da Linha Vermelha

As Opiniões Contrárias [20.abr.2006]
por Marco Polli

No auge da minha fascinação pelo filme Além da Linha Vermelha, eu topei com Rubens Ewald Filho e Jô Soares falando mal dele na TV. Pareciam satisfeitos por achar mais um ponto de concordância e criticaram a obra como duas comadres imemoriais falam da nova vizinha, pretensiosa e desagradável. O filme de Malick nem foi tratado com ódio, eles estavam apenas "desgostosos", despacharam-no com um piparote machadiano. Aquilo me incomodou mais do que eu queria admitir. Nem deveria, pessoas que respeito muito não gostam dos mesmos filmes que eu, minhas próprias opiniões mudam e, afinal, por que esperar o consenso?

E para sublinhar o desacordo, nada melhor que a internet. A rede nos coloca em contato com opiniões as mais disparatadas e confiantes, muitas das quais nem teríamos imaginação para conceber. Provavelmente há alguma página que defenda que a gravidade é uma conspiração. Para provar a minha tolerância, tirei do IMDB algumas opiniões contrárias sobre filmes que admiro:

Apocalypse Now : "O filme pode ter uma ou duas boas cenas de ação. Por outro lado, a trama é tola para um filme de guerra." "Os últimos vinte minutos ou algo assim parecem ter sido filmados por uma criança de três anos brincando com a câmera do pai."
Psicose : "O que é, digam pelo amor de Deus, tãããão assustador sobre um homem num vestido manejando uma faca de cozinha?"
O Poderoso Chefão : "É apenas um monte de italianos nos EUA matando outros"
Blade Runner : "Este é aquele com os robôs feitos por humanos e, mesmo assim, eles nem sabem se são robôs ou não? Blá! Chato e sem sentido, absolutamente sem substância. (...) São humanos? São robôs? Quem se importa?"
Taxi Driver : "Este filme é uma deplorável desculpa para um filme B. A atuação de DeNiro nunca foi tão fraca, com falas pela metade e um roteiro semi-acabado que envergonharia uma novela."
O Sétimo Selo : "O grande problema com esse filme é que nele dificilmente você encontra algo interessante. São apenas vários diálogos longos e desprovidos de sentido, sem uma história de fato que os ligue."
8 e ½ : "Um filme cujo único propósito é justificar a própria existência."

Mas as opiniões contrárias não servem apenas para nos irritar, testar nossa tolerância ou soarem absurdamente cômicas, elas também nos ajudam, por oposição, a definir a nossa identidade. Especulo, por exemplo, o que aconteceria se o "cinema-pipoca" ruim (acho que há o bom, sem dúvida) passasse a ser marginalizado e o "cinema de arte" passasse a ser o mainstream. Imaginem metade das salas nos cinemas multíplex tomadas pelo novo lançamento de Abbas Kiarostami. A Hebe dizendo que achou o filme lindo, mas que gostaria de ver um trabalho de câmera mais ousado. Imaginem chegar na locadora e já haverem saído as 50 cópias da edição remasterizada de Jules e Jim de Truffaut. Por sorte você havia comprado um DVD novo no saldão das Lojas Americanas, Um Cão Andaluz de Buñel.

Nas paradas de caminhoneiro passariam road movies como Sem Destino e os porteiros veriam nas suas pequenas televisões títulos como Janela Indiscreta, Se meu Apartamento Falasse e Edifício Master. Camelôs anunciariam aos berros A Trilogia das Cores de Krzysztof Kieslowski, ensinando-nos a pronúncia correta. Seria curioso ver prazeres íntimos tornando-se o padrão, imagino chegar na casa da namorada e os sogros me convidarem a ver um filme de Pasolini (Teorema ?).

Por outro lado, reduzidos grupos teriam que ver o novo lançamento de Jennifer Aniston em salas pequenas, caindo aos pedaços, localizadas em ruas escuras no centro da cidade. Eles teriam seus próprios mitos, códigos e reclamariam sempre da "massa massificada" que não compreende o cinema de verdade. Jennifer Lopez seria para eles como uma Giulietta Masina, Ben Affleck, um Mastroianni. Um item valorizado seria o livro com fotos de Quem vai ficar com Mary?, em uma edição limitada lançada por uma ONG. Um dos membros desse grupo cinéfilo seria respeitado e conhecido como aquele "que viu mais de 60 comédias-românticas". A minha indagação é se, apenas para ser do contra, eu não começaria a fazer parte desse gueto cultural. Ao fim, será que eu faria parte de uma vaquinha para comprar uma cópia rara, caríssima, de um filme cujas matrizes foram perdidas pelo descaso do estúdio, o incompreendido e abandonado, Titanic ?


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