ÂNGULO - cinema pessoal
Cartaz de Nós que nos Amávamos Tanto

Nós que nos Amávamos Tanto (19.fev.2005)

Ao pensar em filmes sobre a amizade não apenas de duas pessoas mas de um grupo, consigo lembrar de poucas obras com a qualidade de Nós que nos Amávamos Tanto (1975). Eu imagino que conceber um roteiro desse tipo tenha complicadores incomuns, visto o desafio de dar forma a um etéreo sentimento coletivo. Enquanto temos modelos exaustivos da relação entre um protagonista usual e seu par romântico, ou ainda entre ele e seus rivais, o seu melhor amigo, o "sistema", parece que faltam técnicas e referências para se tratar da amizade no plural.

Em Nós... o entendimento sobre a inter-relação entre os personagens beneficia-se dos diversos reencontros que eles têm na história, mesmo que não sejam incluídos sempre todos. Nesses momentos, evidencia-se como o olhar do outro afeta a nossa experiência de identidade. Ainda, depois de uma longa ausência, esse olhar alheio serve como um signo do tempo, ele inspira uma avaliação íntima do que se fez com seus dias e igualmente o reconhecimento do que foi deixado de lado, seja pelas circunstâncias, seja por opção. Algo importante da concepção de Nós.... e que poderia ser seguido é a opção por deixar que o lirismo nostálgico viesse livremente à tela, transbordando-a às vezes, sem romantizá-lo, porém, como algo absoluto. O próprio título do filme serve a esse propósito.

Aquele que fizer um roteiro sobre essa temática hoje terá que lidar provavelmente com as mudanças na noção de proximidade trazidas pela internet. Serviços como Orkut, Google, MSN e correio eletrônico tornaram muito mais fácil o acesso a quem conhecemos um dia. No limite, poderemos saber sempre da vida dessas pessoas , ver suas fotos, trocar recados com elas, tornando-se agora mais uma questão de tempo disponível e de vontade real para tanto. Nada de fato substitui a presença física, mas é significativo que seja mais raro alguém 'sumir do mapa', com todo o lirismo que isso poderia carregar. Enfim, há muitos filmes que estão ainda para serem feitos.


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Página criada por Marco Polli (angulocinema@uol.com.br), texto de sua autoria - Fev/2005