ÂNGULO - cinema pessoal

CMXXXa Mostra de Filmes Não-Realizados [3.novembro.2006]
por Marco Polli

Provavelmente a mais extensa base desse tipo, o Internet Movie Data Base registra que foram lançados no cinema até hoje 360 mil filmes. Porém, mesmo nessa quantidade perdulária, esses títulos contam apenas uma parte da história do cinema, de certo modo a história dos "vencedores". Imponderáveis projetos cinematográficos não chegaram ao fim, mesmo quando capitaneados por diretores já bem estabelecidos. Em um conto de Nelson Bond, o protagonista encontra uma livraria que ostenta obras nunca escritas, como o "Agamenon" de Willian Shakespeare. Essa idéia me fez pensar em uma mostra de filmes que não tiveram a sorte de serem terminados. Relembrando "fracassos" famosos, alguns exemplos de obras a serem exibidas seriam:

Napoleão de Stanley Kubrick. Esse era o projeto que Kubrick pretendia realizar depois de 2001 - Uma Odisséia no Espaço (1968). O roteiro foi finalizado e anos atrás chegou até vazar na internet. Chama a atenção que elementos dramáticos que seriam usados em De Olhos Bem Fechados (1999) estavam originalmente presentes na relação de Napoleão com Josephine. Uma novidade técnica planejada para Napoleão - câmeras especiais que podiam registrar cenas iluminadas apenas com luz de velas - foram montadas e utilizadas de forma bem-sucedida também em outro filme do diretor, Barry Lyndon (1975). Para usar o chapéu do imperador havia sido escolhido o ainda-a-ser-consagrado Jack Nicholson - o qual iria protagonizar muito mais tarde O Iluminado (1980). Um obstáculo central para realizar o Napoleão de Kubrick era o custo, batalhas históricas em que lutaram dezenas de milhares de soldados seriam recriadas com... dezenas de milhares de figurantes. O estúdio também não gostou de ver serem lançados três filmes sobre Napoleão à época, todos com má bilheteria.

Em Busca do Tempo Perdido de Luchiano Visconti. Diversos filmes desse diretor, como O Leopardo (1963), exibem um certo ar proustiano. Depois de terminada A Morte em Veneza (1971), Visconti e equipe partiram para a adaptação direta da obra de Proust. O roteiro estava em fase de finalização, locações já estavam sendo escolhidas e figurinos desenhados, Alain Delon havia sido escalado como protagonista, quando um impasse crítico com o produtor, o orçamento de escalas épicas, fez com que Visconti decidisse passar para outro projeto, Ludwig (1973) . O impasse se tornou uma disputa legal, com sérios problemas de saúde, Visconti só conseguiria realizar antes de falecer Violência e Paixão (1974) e O Inocente (1976).

Dom Quixote de Orson Welles Depois da recepção problemática do seu primeiro filme, Cidadão Kane (1941), Orson Wells nunca mais teve simultaneamente recursos financeiros e liberdade artística para realizar seus projetos cinematográficos. Welles filmava seu Dom Quixote aos poucos, concomitantemente a seu trabalho em outros filmes. Fez isso quixotescamente desde 1955 até que o seu o ator principal faleceu em 1969. Welles deixaria e diversos rolos de película mal conservados e indicações-base sobre como seria conduzida a história. O Quixote de Welles se defrontaria com o mundo moderno e seus aparatos tecnológicos, chegando até a atacar uma tela de cinema. Um colaborador eventual de Welles, Jess Franco, chegou a editar um filme desse material em 1992 - lançado até no Brasil em DVD. Vendo-o, é fácil perceber por que esse esforço foi mal-recebido, não se tem um filme, mas uma sucessão de cenas de qualidade de imagem variável e com recursos de edição de mau gosto. O Quixote de Wells nunca foi realmente finalizado e, sendo assim, podemos ainda nos dar a liberdade de imaginar um filme estupendo e manter-lhe ainda seu ar lendário. Ou então ponderar que diversos filmes não-realizados devem ter nos poupado de grandes decepções.

Esses foram alguns exemplos, o próprio Welles conta com dezenas de projetos apenas iniciados. Seu primeiro filme, por exemplo, seria uma adaptação de "O Coração das Trevas" de Conrad e não Kane. O comitê curador da Mostra de Filmes Não-Realizados teria um trabalho imenso para fazer a seleção e seriam necessárias inumeráveis edições da Mostra. Pensemos apenas no caso do cinema brasileiro, o qual nunca teve uma indústria estável. Nota-se que depois do sucesso de Cidade de Deus (2002) explodiu a oferta de cursos, palestras e workshops relacionados à realização de cinema. Muitos dos seus freqüentadores farão parte de algo similar à Geração Paissandú, referida por Nelson Rodrigues como aquela dos "cineastas que nunca fizeram um filme". Imaginemos quantos argumentos originais, roteiros promissores e cenas cuidadosamente desenhadas estão circulando por aí sem encontrarem vazão. De certo modo, a retomada do cinema brasileiro foi igualmente a retomada de filmes que não foram realizados no Brasil. Entre eles pode estar uma grandiosa ficção cientifica brasileira, uma pornochanchada de cunho existencialista, um filme empolgante sobre a política atual. Todos terão lugar na Mostra, a qual não precisará de patrocínio estatal: teremos o apoio de uma grande empresa privada de energia eólica e solar, de um banco que insiste em cobrar juros baixos e de uma companhia de celular sem nenhum problema de sinal. A Mostra inexistente é um sucesso silencioso.



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