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Amores Épicos (4.mar.2006) |
Amores precisam sempre de grandes obstáculos para mostrar o quanto amor são? Se para Shakespeare o ódio entre duas famílias forneceu os problemas suficientes para dramatizar o amor de Romeu e Julieta, E o Vento Levou e Doutor Jivago, filmes baseados em extensos livros, já se utilizam de conturbações de dimensões históricas. Scarlett O'Hara e Rhett Butler têm ao seu redor simplesmente a Guerra Civil Americana e a derrocada da elite sulista; Yuri Jivago e Lara Antipova não fazem por menos e precisam lidar com a Revolução Russa e a escala siberiana de suas conseqüências sociais. Revendo esses filmes, pergunto-me se assim não estão zombando dos nossos singelos amores cotidianos, permeados por discussões sobre o atraso de outro dia e debates sobre se não era melhor ter escolhido outro filme na locadora ou sobre qual seria a melhor data para a próxima viagem? Lançado em 1939, E o Vento Levou era a produção cinematográfica mais dispendiosa até aquele momento. Filmes em cores ainda eram uma exceção, mas as poucas câmeras adaptadas ao processo Technicolor estavam lá para registrar chamas em Atlanta, gloriosos crepúsculos e hordas de feridos. Três diretores são creditados pelas filmagens, apenas confirmando que se tratava, de fato, de uma obra filha do grande produtor David O. Selznick, o mesmo de King Kong (1933). Já o produtor Carlo Ponti ao contratar David Lean estava entregando o controle artístico do custoso Doutor Jivago a um diretor com forte personalidade. Através de seus dois filmes anteriores, A Ponte sobre o Rio Kwai (1957) e Lawrence da Arábia (1962), Lean havia ajudado a romper em termos visuais e temáticos os limites do cinema feito em Hollywood. Aproveitando os vastos panoramas do deserto, Lawrence da Arábia exibia um arrojo visual inédito e muito dessa abordagem foi transposta para o novo filme na representação dos campos nevados russos. Mesmo para quem, como eu, prefira os outros filmes de Lean, essas são imagens que não são esquecidas facilmente. Assim como E o Vento Levou, Doutor Jivago tem mais de 3 horas de duração e uma trilha sonora que também ficou na mente dos espectadores. Transformada numa versão de gosto mais do que duvidoso por Ray Conniff, o tema para Lara até chegou a estar entre os dez compactos pop mais vendidos nos EUA em 1966. Em que pese as diferenças de estilo, os dois filmes estão entre os exemplos mais acabados de romances frutos do cinema superlativo. Retornando ao nosso amor do dia-a-dia, qual tipo de filme seria mais apropriado a ele? Uma comédia de Woody Allen, um filme iraniano silencioso, uma pequena produção americana independente com algumas indicações no Festival de Sundance? Ou talvez seja melhor admitirmos logo um curta-metragem amador patrocinado pelo Ministério da Cultura? Confesso que sou preguiçoso, prefiro continuar com meus relacionamentos de cinema alternativo do que me lançar em terremotos da história. Mas para aqueles que prefiram viver o seu amor em uma dimensão widescreen não faltam crises em potencial para ambientá-lo: escassez de petróleo, escassez de água, descongelamento dos pólos, ataque nuclear da Coréia do Norte, ataque preventivo americano, esgarçamento completo do tecido social. Não contem comigo, mas boa sorte, minha gente. |